Música se tornou um hino em manifestações ao longo dos anos nos Estados Unidos


Alright, Kendrick Lamar
Foto: Reprodução/YouTube


No fim de 2019, a revista norte-americana Pitchfork, especializada em música, fez o seu ranking com as 200 melhores obras dos últimos dez anos. Na listagem havia nomes como Beyoncé, Tame Impala, Frank Ocean e Robyn. Um dos nomes mais importantes do rap no cenário atual, Kendrick Lamar teve sua música Alright no topo da lista, sendo considerada a música da década. Além disso, Kendrick aparece mais duas vezes com "DNA." e "Bitch, Don’t Kill My Vibe". (caso você queira, pode acessar a lista completa aqui).


A canção que faz parte do disco To Pimp A Butterfly tem grandes motivos para ser considerada uma das mais importantes da década passada. O trecho "We gon’ be alright" (Nós ficaremos bem) se tornou um grito nas vozes de pessoas em movimentos como o Black Lives Matter, durante manifestações nos Estados Unidos.

Estimasse que em 2015 tenha sido uma das primeiras vezes em que se ouviu o trecho durante um protesto do BLM (Black Lives Matter), contra a brutalidade policial e seletividade racial para esse tipo de violência, em Cleveland, Ohio. Isso fez com que a canção se tornasse um hino ou mantra, em manifestações contra a violência policial por lá.


Após o lançamento de To Pimp a Butterfly, Lamar foi entrevistado pelo crítico da cultura pop americana Miles Marshall Lewis, e revelou que foi durante uma viagem à África do Sul que lhe surgiu a inspiração para escrever a canção — especificamente na Ilha Robben, na cela em que Nelson Mandela esteve preso.

"Quatrocentos anos atrás, como escravos, oramos e cantamos canções alegres para manter a cabeça equilibrada com o que estava acontecendo", disse Lamar. "Quatrocentos anos depois, ainda precisamos dessa música para curar. E eu acho que 'Alright' é definitivamente uma daquelas que faz você se sentir bem, não importa a que horas sejam." Com Alright, Kendrick não só quis trazer uma crítica e uma luta contra o racismo, mas também uma esperança para as pessoas, resumindo o espírito de uma década que chega ao fim.

Nos dias atuais, estamos acompanhando a crescente série de manifestações e atos pedindo justiça pelo assassinato de George Floyd, cometido pela polícia de Minneapolis, nos Estados Unidos. "I can't breathe" (Eu não consigo respirar) foram as últimas palavras de George, asfixiado até a morte por um polícial branco. O ocorrido que teve vídeo gravado por testemunhas chocou o país e fez com que a força e indignação da população crescesse e da mesma forma que em Cleveland, Alright tem sido utilizada como mantra nas manifestações por todo o país — dando força aos movimentos locais. O assassinato de Floyd não só expõe a conduta violenta da polícia, mas também a desigualdade que afeta profundamente a vida dos negros nos Estados Unidos.

O racismo estrutural e a violência policial é um tema bastante tratado e imposto nas produções culturais, sejam elas filmes, séries, livros ou músicas. No caso das canções, acabam se tornando gritos, desabafos e trilha sonoras de momentos históricos do movimento negro, não só nos Estados Unidos mas no mundo. Isso mostra o poder e a riqueza que tem a arte e a cultura, na luta por um mundo menos intolerante e mais justo.


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